Xirê


 

 

CERIMÔNIAS PÚBLICAS

 

Festa ou Toque é o nome que se dá, genericamente, à cerimônia pública de candomblé. O objetivo principal é a presença dos orixás entre os mortais. Sendo a música uma linguagem privilegiada no diálogo dos orixás, a festa pode ser entendida como um chamado ou uma prece, pedindo aos deuses que venham estar junto a seus filhos, seja por motivo de alegria ou necessidade.

Tratando-se de uma festa,todo o terreiro é enfeitado com folhas na parede e no chão e os três atabaques ( RUM, RUMPI, LÉ ), considerados aqueles que chamam os orixás juntamente com EXU, recebem comidas e são enfeitados com laços na cor do orixá ao qual foram consagrados. Todas as festas acontecem no espaço do terreiro denominado barracão, onde se encontram os atabaques, à frente dos quais canta e dança o povo- de- santo, separado ( ainda que dentro de um mesmo ambiente ) da assistência. Um toque comum começa, geralmente, pelo ritmo dos atabaques chamando a roda - de- santo (filhos de santo organizados em círculo), respeitando a hierarquia do terreiro. As roupas costumam ser muito bonitas, fazendo alusão ao orixá individual do adepto. São usadas as contas dos orixás, os brajás (colar de contas feito em gomos , símbolo do conhecimento e poder) e as faixas na cintura, símbolos de ebomis e tudo o que identifique o status religioso.

A roda entra dançando e estando no barracão, os atabaques param, o pai- de-santo saúda EXU e tem início o padê, que tem por finalidade “despachar” EXU (através da oferenda de farinha com dendê e gim),seja porque se acredite que ele possa causar perturbações ao toque, seja porque se acredite que é ele o principal mensageiro,que abrirá os caminhos para vinda os orixás. Fim do padê, prossegue o xirê que é uma estrutura seqüencial de cantigas para todos os orixás cultuados na casa ou mesmo pela Nação começando por EXU e indo até OXALÁ. A palavra xirê significa brincar, dançar, e mostra o tom alegre da festa onde os Orixás vêm à terra para dançar e brincar com seus filhos. Seja qual for a sequência, privilegiando os vínculos de parentesco e de nação, ela costuma ser fixa para cada casa, dirigindo os acontecimentos da festa, fazendo com que os filhos-de-santo identifiquem, através das cantigas e ritmos, os momentos apropriados ao cumprimento da etiqueta religiosa.

 

A festa do candomblé tem início com a matança, que é o sacrifício de animais para os orixás. Nesta cerimonia só tomam parte os fieis do candomblé, não tendo acesso o publico. A noite inicia com a festa do Padê ou despacho de EXÚ, este é feito para que ele não atrapalhe a cerimonia e tudo ocorra normalmente. Dá-se prosseguimento a festa, cantando sete pontos para cada orixá, afim de chama-los. A Ialorixá traz na mão um Adjá, e sacode-o para cada orixá que "baixa", entra em transe mediùnico. Os orixás vão baixando gradativamente e estando todos no barracão, são levados para o Roncó (quarto de santo) onde são vestidos de acordo pelas ekedes ou Ogãs, com trajes típicos do respectivo santo. Depois de prontos, a Ialorixá inicia um cântico convidando-os a entrarem no barracão e dançarem, todos os assistentes ficam de pé, enquanto os santos- não mais as filhas- fazem sua entrada triunfal, acolitados pelos ekedes munidas de alvas toalhas. Depois cada santo abençoará as pessoas, ficando por fim os Erês afim de descansar os cavalos.

 

Cada ritual possui pelo menos um tipo de canto que lhe é específico. A partir daí, podemos dizer que todo o ritual se refere ao nível musical da sua expressão simbólica. Se outros níveis do simbolismo já distinguiam os rituais entre si, o material musical vem agora intensificar essas diferenças. Há um tipo de canto introduzido em cada novo ritual; em geral, apenas um único tipo marca a diferenciação entre dois rituais distintos.

Deste modo, um adepto recém-chegado ao culto ganha uma nova parcela de informação musical em cada novo ritual de que participa, ao mesmo tempo que reforça o conhecimento do material musical a que já havia sido exposto nos rituais anteriores. Sob esse ponto de vista, a informação musical geral está distribuída mais ou menos uniformemente através do sistema musical inteiro e é somente pela participação, desde o primeiro até ao último dos rituais, que uma pessoa pode absorver o âmbito completo da música africana.

A música, no candomblé, tem um papel mais significativo que o mero fornecimento de estímulos sonoros aos diversos rituais. Ela pode ser entendida como elemento constitutivo do culto, dando forma a conteúdos inexprimíveis em outras linguagens, termo aqui entendido como articulação de signos e símbolos.

Todos os rituais do culto estão apoiados também na música, que mostra um caráter estruturante das diversas experiências religiosas vividas pelos seus membros. Do Paó (sequência rítmica de palmas usada para reverência) ao toque (Xirê), a música continua a ser parte de cada cerimônia, constituindo-a, delimitando situações e ordenando o conjunto das práticas extremamente detalhadas.

“Tocar candomblé” é um termo comum entre o “povo-de-santo”, indicando que o candomblé e a música se confundem. Por isso, o conhecimento das cantigas e dos ritmos denota prestígio e acesso às instâncias de poder da religião. Sendo a música um elemento sagrado e sacralizante, tanto instrumentos quanto instrumentistas se revestem desta aura, que se revela no tratamento que estes recebem por parte dos membros da comunidade do terreiro.

 

 

 

 

LENDAS_____________________________________________________________________

 

Assim nasceu o Candomblé

 

No começo não havia separação entre o Orum, o Céu dos orixás, e o Aiê, a Terra dos humanos.

Homens e divindades iam e vinham, coabitando e dividindo vidas e aventuras.

Conta-se que, quando o Orum fazia limite com o Aiê, um ser humano tocou o Orum com as mãos sujas.

O céu imaculado do Orixá fora conspurcado.

O branco imaculado de Obatalá se perdera.

Oxalá foi reclamar a Olorum.

Olorum, Senhor do Céu, Deus Supremo, irado com a sujeira, o desperdício e a displicência dos mortais, soprou enfurecido seu sopro divino e separou para sempre o Céu da Terra.

Assim, o Orum separou-se do mundo dos homens e nenhum homem poderia ir ao Orum e retornar de lá com vida. E os orixás também não podiam vir à Terra com seus corpos. Agora havia o mundo dos homens e o dos orixás, separados. Isoladas dos humanos habitantes do Aiê, as divindades entristeceram.

Os orixás tinham saudades de suas peripécias entre os humanos e andavam tristes e amuados.

Foram queixar-se com Olodumare, que acabou consentindo que os orixás pudessem vez por outra retornar à Terra.

Para isso, entretanto, teriam que tomar o corpo material de seus devotos.

Foi a condição imposta por Olodumare.

Oxum, que antes gostava de vir à Terra brincar com as mulheres, dividindo com elas sua formosura e vaidade, ensinando-lhes feitiços de adorável sedução e irresistível encanto, recebeu de Olorum um novo encargo:

preparar os mortais para receberem em seus corpos os orixás.

Oxum fez oferendas a Exu para propiciar sua delicada missão.

De seu sucesso dependia a alegria dos seus irmãos e amigos orixás.

Veio ao Aiê e juntou as mulheres à sua volta, banhou seus corpos com ervas preciosas, cortou seus cabelos, raspou suas cabeças, pintou seus corpos.

Pintou suas cabeças com pintinhas brancas, como as pintas das penas da conquém, como as penas da galinha-d’angola. Vestiu-as com belíssimos panos e fartos laços, enfeitou-as com jóias e coroas.

O ori, a cabeça, ela adornou ainda com a pena ecodidé, pluma vermelha, rara e misteriosa do papagaio-da-costa. Nas mãos as fez levar abebés, espadas, cetros, e nos pulsos, dúzias de dourados indés.

O colo cobriu com voltas e voltas de coloridas contas e múltiplas fieiras de búzios, cerâmicas e corais.

Na cabeça pôs um cone feito de manteiga de ori, finas ervas e obi mascado, com todo condimento de que gostam os orixás.

Esse oxo atrairia o orixá ao ori da iniciada e o orixá não tinha como se enganar em seu retorno ao Aiê.

Finalmente as pequenas esposas estavam feitas, estavam prontas, e estavam odara.

As iaôs eram as noivas mais bonitas que a vaidade de Oxum conseguia imaginar. Estavam prontas para os deuses.

Os orixás agora tinham seus cavalos, podiam retornar com segurança ao Aiê, podiam cavalgar o corpo das devotas.

Os humanos faziam oferendas aos orixás, convidando-os à Terra, aos corpos das iaôs.

Então os orixás vinham e tomavam seus cavalos.

E, enquanto os homens tocavam seus tambores, vibrando os batás e agogôs, soando os xequerês e adjás, enquanto os homens cantavam e davam vivas e aplaudiam, convidando todos os humanos iniciados para a roda do xirê, os orixás dançavam e dançavam e dançavam.

Os orixás podiam de novo conviver com os mortais.

Os orixás estavam felizes.

Na roda das feitas, no corpo das iaôs,

eles dançavam e dançavam e dançavam.

Estava inventado o candomblé.

 

 

 

CURIOSIDADES_______________________________________________________________

 

 

Candomblé - Mônica Millet - Grupo Asè do Brasil  - Nação Kétu

 

 

 

Xirê Voduncê com saída de Iansã